Bom, você sua melhor amiga desde os sete anos e dormir na casa dela é mais comum do que em sua própria, ela mora em sua segunda casa e você, na dela. Vocês se conhecem melhor do que ninguém, seus gostos seu medos e suas vergonhas, e decifram os sentimentos uma da outra em um único olhar. Então há uma mudança e você vai para bem longe. A amizade é mantida através de computadores e telefonemas, mas vocês não tem o menos problema com isso. Não foi ela quem morou um ano fora do Brasil? Os contatos eram menos constantes, vocês eram mais novas, mas nada se alterou. Houve saudade, ciúmes das novas amigas de ambas e, na volta, até uma certa distância. Nada mais natural, em um ano, todos mudam. Mas a amizade continua a mesma, as risadas, as histórias e a infância permaneceram intactas, não?
Sim, é claro, pois não é você que vai passar um mês naquela que costumava ser sua segunda casa? Um mês, acho que nunca estendemos ¨ Só um final de semana mãe, por favor!¨ por tanto tempo. Mas nas visitas anteriores a única reclamação era sempre ¨É pouco tempo!¨. Em três anos de bem longe essas visitas até que foram constantes, mas nunca matou por completo as saudades. Nossa, três anos, vocês devem ter mudado bastante. Sim, é claro que mudamos, mas nenhuma mudança foi capaz de alterar a amizade no passado, por que seria agora? No auge de nossa liberdade?
O primeiro dia é perfeito, assim como deveria ser, há muito o que se contar, planejar para um mês de férias na ilha mais jovem do mundo. Jovem? E a família, não temos pais, mãe, tios, avós? Sim, é claro que temos, mas estes nunca dificultaram nossos planos no passado, isso é o que você acreditava, por que o fariam agora?
Mas, aos poucos sua opinião sobre esse passado tão livre muda. Você começa a pensar que esta talvez não seja mais sua segunda casa. São olhares reprovadores enquanto você ouve uma música que não condiz com o gosto local, tudo bem, é só abaixar um pouco. Mas os olhares persistem. Agora não é mais a música, é o seu short, o jeito que você arruma a cama, sua maquiagem. Tudo está errado. Mas e daí? você está de férias no lugar em que mais ama no mundo e seus melhores amigos estão lá, você resolve esquecer os detalhes familiares e aproveitar suas férias. Então o problema são os seus programas. Mas os olhares persistem e perdem qualquer sentido. Não posso ver determinados amigos por que segundo meus pais momentâneos eles ¨deixaram de ser amigos¨, não posso me virar pra voltar pra casa por que ¨você não sabe, mas o pai dela bebe e dirige¨ nem muito menos ir a um churrasco por que a família que convida ¨compra as pessoas com festas e piscinas¨. Então você passa a entender algumas antigas desculpas de última hora da sua melhor amiga pra não ir numa que promete ser A Festa. Você fica em choque, como pode ser tão ingênua esse tempo todo? ¨Não quero ir mesmo, não sei porque, só perdi a vontade¨ Querer te super proteger é bem compreensível, cuidar do próprio filho é uma coisa, imagina o filho dos outros. É claro que eu entendo o lado deles, eram responsáveis por mim. Mas ela? Minha melhor amiga, conhecida como a menor mais responsável da ilha, proibida de ir na praia amanhã porque ficou muito tempo no sol hoje? Sinceramente, não.
A situação não melhora com a família, mas entre vocês a amizade continua igual e isso é o que te deixa feliz, afinal a amizade foi construída entre vocês duas e não entre suas respectivas árvores genealógicas. E então chega ao fim, depois de um mês inteiro, de novo ao aeroporto.
Você chega em casa, se muda, tudo novo, de novo. Está tudo certo entre vocês, mantendo contato como sempre. Até que de repente surge um texto. Um texto que te transforma em monstro envenenador de ambiente familiar, opressora de vontades, chantagista. Pior que isso, o texto surgiu enquanto você ainda estava lá, só não pode lê-lo. Não é o texto em si que te chateia, todo mundo estava no limite e cada um tem seu jeito de desabafar, triste é saber que ela não teve a confiança necessária pra te dizer tudo aquilo ao vivo, na cara, enquanto ainda podia ser discutido. Mas não, foi do pior jeito possível, na maneira mais covarde de te dizer que não suportou, que dessa vez não tem mais volta, não há piscada de olho que resolva.
Desculpa, amiga, se eu acabei com as suas férias e envenenei seu ambiente familiar, se oprimi sua vontade e te fiz chantagem emocional, moral, sei lá. Desculpa por achar triste que não tivemos a franqueza necessária pra ter essa conversa olho no olho, para que pudéssemos deixar o orgulho de lado e resolver à moda antiga. Desculpa por responder de uma maneira tão covarde. Desculpa por achar que no momento em que a novidade passasse, quando eu parasse de me forçar a ver tudo que é novo com otimismo, quando eu precisasse explodir pra qualquer lado eu poderia contar com você, como sempre pude. Desculpa, enfim, por errar.
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